GERÊNCIA DE PATRIMÔNIO HISTÓRICO URBANO -SECRETARIA MUNICIPAL ADJUNTA DE REGULAÇÃO URBANA - DOSSIÊ DE TOMBAMENTO CONJUNTO RESIDENCIAL IAPI - SÃO CRISTÓVÃO
- Dossiê de Tombamento
- Considerações Imiciais
- Pólítica de Proteção e Planejamento
- Bairro São Cristovão
- Histórico do IAPI
Conjunto Residencial São Cristóvão - IAPI
- Av. Antônio Carlos, 1035 – Edifício 2
- Av. Antônio Carlos, 1089 – Edifício 4
- Av. Antônio Carlos, 1143 – Edifício 6
- Av. Antônio Carlos, 1197 – Edifício 8
- Av. José Bonifácio, 180 – Edifício 3
- Av. José Bonifácio, 240 – Edifício 5
- Av. José Bonifácio, 300 – Edifício 7
- Av. José Bonifácio, 360 – Edifício 9
- Rua Araribá, 336 – Edifício 10
Equipe Técnica Responsável
- Françoise Jean de Oliveira Souza
- Sandra Pereira da Silva
- Historiadoras/GEPH
- Carlos Henrique Bicalho
- Mariana Guimarães Brandão
- Arquitetos Restauradores/GEPH
- Deodoro Fiúza Furtado
- Arquiteto/GEPH
Em 27 de novembro de 2006 foi encaminhado pela Fundação Municipal de Cultura à Gerência de Patrimônio Histórico
Urbano (GEPH) o processo n° 01.144907.06.09, solicitando exame e prestação de informações para subsidiar resposta
ao Legislativo, por meio da Secretaria Municipal de Governo, referente à Indicação n° 578/2006 aprovada pela Câmera
Municipal de Belo Horizonte, de autoria da vereadora Neusinha Santos, que sugere ao Conselho Deliberativo do
Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte (CDPCM/BH) o início do processo de tombamento do Conjunto
Residencial IAPI.
Em resposta a referida solicitação, o CDPCM/BH, em sessão ordinária realizada em 25 de abril de 2007, deliberou pela
abertura do processo de tombamento do Conjunto Residencial IAPI, localizado na área compreendida entre a Av.
Presidente Antônio Carlos, Rua Araribá e Av. José Bonifácio, bairro São Cristóvão.
O presente dossiê de tombamento, processo n° 01.058446.07.72, tem por objetivo constatar o valor urbanístico e
cultural do bem cultural supra discriminado de modo a subsidiar sua proteção por meio de tombamento, conforme
estabelecido pela Lei no3802/84 de 06 de julho de 1984 que organiza a Proteção do Patrimônio Cultural do Município de
Belo Horizonte e estabelecer suas diretrizes fundamentais de proteção.
As cidades são sistemas vivos, espaços em constante construção. Este dinamismo é experimentado e transformado por
aqueles que habitam os espaços urbanos: os cidadãos são as raízes das cidades. A história da cidade se constitui de
suas permanências e mudanças, da afetividade e dos símbolos construídos e apreendidos pelos cidadãos. Estes
símbolos, segundo Aldo Rossi, se constituem em verdadeiros “nós de significação”, e seriam elementos que sintetizam
e encerram conteúdos de construção coletiva de grande importância para uma sociedade. A cidade pode ser, então,
entendida como lugar privilegiado onde as manifestações do cotidiano de seus habitantes compõem a multiplicidade de
seus espaços.
Mas, é também diante dessa complexidade que se encontra o desafio de gestão desses espaços plurais e de como
garantir a qualidade de vida desses lugares da coletividade. Nesse sentido, a preservação do patrimônio histórico,
enquanto política pública setorial assume cada vez mais um papel legitimador no processo da apropriação pelos
cidadãos dos espaços da cidade, sua paisagem, caminhos e símbolos, considerando todas as diversidades e
divergências presentes na dinâmica urbana. Assim, preservar o patrimônio é uma das vertentes do planejamento
urbano. Não se trata de uma ação pontual, e sim de ações integradas com os diversos setores da administração
municipal e com a própria comunidade. Deve-se entender como ação planejadora, uma visão articulada e integrada dos
diversos aspectos que interferem na conformação urbana. Tem-se como parâmetro primeiro esta “visão articulada”, a
dimensão temporal, ou seja, a noção de que as ações humanas se realizam determinadas por um conjunto de valores
vigentes em dados momentos históricos que as contextualizam. Trata-se, portanto, de articular passado, presente e
futuro com vistas a uma harmonização, mesmo que através da diversidade, e ao estabelecimento de um diálogo entre
passado e presente. Nesse mundo globalizado, onde as cidades se inserem numa extensa rede mundial de
comunicação e de mercado, como a teoria dos vasos comunicantes da física, existe uma tendência à homogeneização
em todos os níveis, inclusive o da cultura. É preciso garantir o vínculo entre passado e presente, pois é a partir dele que
se estabelecerão as identidades relativas àquele espaço, àquele tempo e àquela comunidade, ou seja, serão mantidas
e respeitadas as especificidades de um lugar, onde a construção do novo se dará tendo como lastro a sua herança do
passado. Essa visão, incorporada à ação planejadora da administração municipal, permite que um dos aspectos da
cultura, concretizado e realizado no espaço da cidade, adquira a importância que lhe é devida no trato da “coisa
pública”. No Plano Diretor de Belo Horizonte, em capítulo que trata de seus objetivos estratégicos para a promoção do
desenvolvimento urbano, prevê-se a criação de condições para preservar a paisagem urbana e a adoção de medidas
para tratamento adequado do patrimônio cultural do Município, tendo em vista sua proteção, preservação e
recuperação.
Hoje, a política de proteção dos bens culturais em Belo Horizonte tem como um de seus fundamentos os conjuntos
urbanos, que são áreas da cidade definidas com o objetivo de se proteger espaços específicos, denominados espaços
polarizadores, onde são encontradas ambiências, edificações ou mesmo conjunto de edificações que apresentam
expressivo significado histórico e cultural. Os espaços polarizadores dos conjuntos destacam-se por desempenharem
uma função estratégica e simbólica na estruturação e compreensão urbana. Visando a proteção dessas áreas, foram
estabelecidos os critérios e diretrizes de preservação.
O perímetro de proteção de cada conjunto urbano é definido pela concordância de dois espaços, sendo eles:
• Espaço de valor simbólico e/ou polarizador: é o espaço urbano que apresenta grande importância para a cidade, tanto
por seu valor histórico-urbanístico, quanto por seus espaços edificados que, ao longo do tempo, incorporaram-se no
imaginário coletivo, na configuração da cena urbana e no cotidiano dos seus moradores.
• Espaço de valor urbanístico: é o espaço que possui ainda o traçado original proposto e uma ocupação heterogênea,
conformando um cenário urbano variado onde se localizam, em pequenos grupos, edificações e/ou ambiências de valor
histórico arquitetônico específico. Tal espaço influencia e vincula-se diretamente, sob o aspecto visual ou ambiental, ao
espaço simbólico que o polariza.
Através dos critérios e diretrizes de proteção das áreas preservadas, busca-se trabalhar conjuntamente com os
cidadãos, a guarda e promoção dos bens culturais representativos da memória da cidade. Para a proteção dos
conjuntos urbanos foram adotados pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo
Horizonte/CDPCM-BH os seguintes instrumentos de proteção:
• Edificações de interesse cultural: tratam-se de todas as edificações inseridas no perímetro do conjunto urbano
protegido;
• Edificações de valor especial – Registro Documental: tratam-se de todas as edificações com valor histórico-
urbanístico, que isoladamente não apresentam características relevantes capazes de justificarem seus tombamentos
mas, na composição com as edificações próximas a elas, caracterizam uma fase da ocupação da cidade;
• Edificações de valor polarizador e/ou simbólico – Tombamento Específico: referem-se tanto às edificações que se
constituem em referenciais simbólicos para o espaço e memória da cidade, quanto àquelas com significado histórico e
arquitetônico dignos de proteção.
Soma-se a essa política, a Lei de Parcelamento, Ocupação e Uso do Solo Urbano do Município, apresentando em seu
capítulo VI, as ADEs – Áreas de Diretrizes Especiais que “por suas características, exigem a implementação de
políticas específicas, permanentes ou não, podendo demandar parâmetros urbanísticos, fiscais e de funcionamento de
atividades diferenciados, que se sobrepõem aos do zoneamento e sobre eles preponderam”. Este mecanismo irá tratar,
no nível espacial, de procedimentos diferenciados relativos ao uso e à ocupação do solo urbano nas áreas identificadas
como “especiais”, seja pelo seu caráter ambiental, cultural, econômico, social e físico-paisagístico.
“As cidades na América não só foram recentemente construídas como estão para renovar-se
com a mesma rapidez com que foram edificadas (….) No momento de levantar-se, os novos
bairros quase nem são elementos urbanos….parecem mais uma feira, uma exposição
internacional construída só para alguns meses. Logo depois desse lapso de tempo, a festa
termina e essas figuras enlanguescem: as fachadas descascam, a chuva e granizo deixam
suas marcas, o estilo passa de moda, a disposição primitiva desaparece sob as demolições
que uma nova impaciência exige1”
O Conjunto IAPI localiza-se no bairro São Cristóvão, sexta seção suburbana, região noroeste de Belo Horizonte. Mais
antiga do que Belo Horizonte, esta região, formada por chácaras que pertenciam em sua maioria a italianos, constituía
um sítio de passagem de tropeiros que partiam ou chegavam dos “currais da Bahia”. Com a implantação da nova capital
de Minas Gerais, essa região, por ser suburbana, encontrando-se fora do perímetro da Avenida do Contorno, manteve-
se livre do projeto idealizado para a área central.
Embora estejam próximos ao centro de Belo Horizonte, o bairro São Cristóvão e seu entorno mais imediato formaram,
desde o início, uma típica região de periferia. As diferenças marcantes responsáveis pela cristalização de suas
características são inúmeras e incluem, desde os condicionamentos do sítio natural (marcado pelos vales de três
córregos: o Ribeirão Arrudas e dois de seus afluentes; o Córrego lagoinha, onde se encontra hoje a Avenida Antônio
Carlos e o córrego Menezes, onde se encontra a Av. Pedro II) que se refletiram em seu traçado urbano, passando pelas
características de sua população, basicamente operária, até a sobreposição de uma série de intervenções do poder
público.
A região Noroeste foi consolidada no período compreendido entre 1893-1897, quando imigrantes e operários vieram
trabalhar na construção da capital. A falta de espaço na região central fez com estes trabalhadores fossem deslocados
para fora dos limites da Avenida do Contorno. Neste contexto surgiu a Pedreira Prado Lopes, primeiro pólo habitacional
da região.
A presença da pedreira Prado Lopes que fornecia material para a construção da cidade, a proximidade com o Mercado
Municipal (onde atualmente encontra-se a rodoviária) importante no abastecimento da cidade e a proximidade também
com a Estação Ferroviária trouxeram uma maior dinâmica àquela região2.
Lévi-Strauss, Claude. Tristes Trópicos. Buenos Aires: Editoria Universitária de Buenos Aires, 1970.Pg.81.
1
MORAES , Fernanda Borges de; PEREIRA, Maria de Lourdes Dolabela. Inventário do Patrimônio Urbano e Cultural de Belo Horizonte: Bairro Lagoinha. Belo
2
Horizonte: Secretaria Municipal de Cultura. 1995, p. 46.
A Pedreira Prado Lopes, vale dizer, encontra lugar relevante na história da construção da capital. Sua origem está
ligada à família Prado Lopes. No início das obras de Belo Horizonte, o então engenheiro Antônio Prado Lopes Pereira,
de 1a classe da Comissão Construtora da Capital, 3a divisão, já explorava o local para dali retirar suas pedras e usá-las
na edificação de casas da cidade. Abílio Barreto, ao falar sobre os materiais empregados na construção da Nova
Capital, ressalta o problema das pedras: “Quando a Comissão Construtora entrou definitivamente no período das
construções, com exceção das pequenas pedreiras mal exploradas pelos empreiteiros de obras e que não davam
resultado satisfatório, nenhuma havia ainda em condições de poder suprir a avultada quantidade desse material, que se
ia tornando grandemente necessário”3. Cuidando de obter a pedra necessária para as obras em início, o engenheiro-
chefe providenciou a abertura de caminhos para as pedreiras em melhor situação, conta-nos Abílio Barreto. Assim,
foram postas em movimento as pedreiras da Carapuça, Cardoso, Viação e Prado Lopes, esta última também conhecida
na época por Lagoinha.
O processo de transformação da pedreira em favela veio aos poucos com a urbanização. Já no início do século XX,
houve uma crise de moradia na capital e a prefeitura passou, então, a liberar terrenos nas regiões suburbanas para a
construção de moradias. Uma delas foi a região onde funcionava a pedreira da família Prado Lopes. Desse fenômeno
surgiu a primeira favela de Belo Horizonte. Esta pode ser entendida como conseqüência da política estabelecida, desde
o início da cidade, de reservar para a zona suburbana o papel de abrigar os estratos menos favorecidos da sociedade.
Segundo relato de antigos moradores do bairro São Cristóvão, a vila Prado Lopes ficava no que se considerava a saída
de Belo Horizonte. O lugar onde hoje se encontra a Avenida Antônio Carlos era um “brejo”, sendo que “na rua Formiga
existia uma ponte preta que dava para a estrada de Venda Nova”. Como a vila ficava na periferia, os moradores não
tinham lazer. “A favela era pequena. Então, ao anoitecer, os moradores subiam o morro para ver as luzes da cidade
serem acesas. Na hora, todo mundo vibrava”4.
3 BARRETO, Abílio. Belo Horizonte: Memória Histórica e Descritiva-História Média. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, Centro de Estudo Históricos e
Culturais, 1995, p. 466.
4 O Tempo. 04 de agosto de 2001. Caderno Emegê.
À medida que a cidade crescia da periferia para o centro - e não vice-versa como pretendiam as diretrizes oficiais -
acentuavam-se as carências de infra-estrutura nos bairros externos ao perímetro delimitado pela Avenida do Contorno.
Um bom exemplo diz respeito aos serviços de higiene que, obviamente, mostravam-se mais presentes na zona urbana
em detrimento de outras áreas. No São Cristóvão, o problema se agravava à medida que o córrego Lagoinha sujeitava
a população a graves moléstias infecciosas. Em 06 de junho de 1938, o jornal Folha de Minas denunciava que:
…Desse esse córrego da pedreira Prado Lopes, prolongamento do bairro Lagoinha,
atravessando toda a grande extensão de suas ruas (…) Com pouca quantidade de água, em
terreno muito acidentado, o pequeno córrego forma poços d`água estagnadas, às quais já
apodrecidas vêm se juntar, despejos, animais mortos e toda espécie de imundícies, o que
representa uma grave ameaça à saúde dos que moram ou passam naquela parte da cidade.
Há na prefeitura o projeto de construção da avenida sanitária, que se fosse executado, sanaria a
grave questão. Tal projeto, porém, vem dormindo na pasta dos responsáveis pela execução
como uma verdadeira sentença condenatória daqueles que ficariam beneficiados com tão
necessária realização5.
Apesar de, desde 1927, já haverem sido desapropriados os terrenos necessários à abertura da avenida sanitária – no
trecho que vai da Avenida do Contorno até a Rua Formiga -, bem como, em 1928, houvesse ocorrido a aprovação do
referido projeto, constata-se pela reportagem que, dez anos depois, as obras ainda não haviam sido iniciadas. Vale
lembrar que em 1933, quando foi inaugurado o primeiro campo de aviação da cidade – o Aeroporto da Pampulha – o
acesso a toda a região a ele adjacente se fazia pela região dos bairros da lagoinha e São Cristóvão, na chamada
estrada velha da Pampulha, a qual somente veio receber calçamento em 1937.
Concomitantemente ao acirramento dos problemas sanitários da região, percebe-se também o crescimento da violência
na região lindeira à favela da Pedreira Prado Lopes. Em reportagem datada de 1935 a imprensa revelava que;
Citado por: PEDERSOLI, Aurora. Uma Conceituação de Recuperação Urbana para o Bairro da lagoinha. Belo Horizonte. Universidade Federal de Minas
5
Gerais. Escola de Arquitetura. Monografia. 1992, p. 41.
Início das obras de abertura da Rua Pedro Lessa na pedreira Prado
Lopes. Fonte: Relatório dos Exercícios de 1940 e 1942.
Cotidiano dos moradores da Pedreira Prado Lopes. Fonte:
Relatório dos Exercícios de 1940 e 1942.
O assassinato de ontem é um crime de morro. Os leitores dos jornais belorizontinos não devem
estar muito acostumados a esta expressão porque ela tem acepção mais de ambiente que
propriamente de topografia. E agora é que principia a se formar em Belo Horizonte esse
ambiente de “morro”, isto é, esses agrupamentos de casebres em promiscuidades, de barracões
e botequins em recantos afastados e onde populam os malandros e as mundanas de baixa
extração (…). O local do crime está nas redondezas da Pedreira Prado Lopes. São 3 favelas em
formação ocupando um morro inteiro no fim da rua Mariana6.
A existência físico-espacial da favela, embora ocorresse desde a origem de Belo Horizonte, começava a apresentar as
tendências marginais da população, constituindo em fator de consolidação de uma imagem negativa daquela porção da
região noroeste da cidade.
No final dos anos de 1930 e início de 1940, o bairro começa a sofrer uma série de intervenções urbanas de grande
porte, contribuindo para o desenvolvimento da região. Neste período, a cidade foi preparada para a industrialização, em
decorrência do novo modelo político-econômico implantado no Brasil, após a revolução de 1930. O poder público,
passando a atuar no espaço no sentido de implantar a infra-estrutura de apoio ao projeto industrialista, começou a
esboçar o que seria a forma urbana da futura aglomeração metropolitana. Dessa forma, implantou-se Zona Industrial de
Belo Horizonte (1936) e da Cidade Industrial Juventino Dias, pelo governo do Estado, e o complexo de lazer da
Pampulha, desencadeando um acelerado crescimento urbano e populacional. Também, iniciou-se a abertura de
diversas vias, reforçando a configuração rádio-concêntrica da cidade.
A edificação do Conjunto Arquitetônico da Pampulha, principal obra do governo do então prefeito Juscelino Kubitscek,
exigia a construção de melhor meio de acesso àquele bairro em formação e que prometia ser “ um dos mais
encantadores da capital”7. A antiga estrada de rodagem de Venda Nova não comportava mais a contingência de tráfego
sempre crescente em direção ao novo bairro. Diante disto, a prefeitura, com base em estudos anteriormente feitos para
abertura da avenida sanitária, iniciou os trabalhos de abertura da Avenida Pampulha. Esta, partindo da Rua Formiga e
passando pelos terrenos marginais do Bairro Popular, seguia em linha reta de 4.200 metros de extensão até a represa.
A avenida Pampulha, mais tarde Presidente Antônio Carlos, tornou-se um importante acesso a diversas rodovias e zona
norte, que então se encontrava em franco processo de expansão com a construção do Aeroporto da Pampulha e do
Complexo de lazer da Pampulha. Essa obra pode ser considerada a primeira grande intervenção urbana sofrida pela
região suburbana do bairro são Cristóvão, Lagoinha e adjacências. A segunda viria com a implantação do Bairro
Popular, ou seja, o Conjunto Habitacional do IAPI.
Idem. P. 46.
6
Relatório dos Exercícios de 1940 e 1941, apresentado ao Exmo. Snr. Dr. Benedicto Valladares Ribiero, governador do Estado, pelo prefeito Juscelino Kubitschek
7
de Oliveira. Prefeitura de Belo Horizonte, 1942. p. 23.
10
Além da abertura da Avenida Pampulha, a atenção dada ao novo bairro residencial deveria ser contrabalançada,
segundo JK, com o estudo e a solução do problema dos bairros populares. Isto porque a cidade encontrava-se em
rápido crescimento e a falta de moradia era um dos principais entraves ao desenvolvimento. Além disso, a prefeitura
mostrava-se incomodada com o crescimento das vilas e favelas, e em particular, com o aglomerado de casebres que se
fazia presente às margens da nova avenida sanitária da cidade: “ em vários anos sucessivos, a dois passos da cidade,
se vinham localizando classes de menos capacidade econômica, operários e até mendigos, na área conhecida pela
designação de pedreira Prado Lopes”8. Deste modo, verificava-se a necessidade de acabar com a pedreira Prado
Lopes, decretando “a extinção daquele foco de doenças e malandragem”9. Neste local encontravam-se morando, sem
nenhum serviço de água e instalações sanitárias cerca de 483 cafuas e com população por volta de 3.000 pessoas,
todas vivendo nos “mais desoladores índices de habitabilidade, inferiores a quanto se podia admitir, com expressão
mínima de elementares condições de higiene”10.
Fazia-se, pois, urgente a necessidade de extinguir aquela favela que se apresentava como o contra-modelo do
progresso e da prosperidade ambicionados pelo governo de JK. A solução vislumbrada estaria na construção de
grandes prédios de apartamentos, onde, pela construção e sistema de exploração, seria possível um aluguel módico e
ao alcance de todos. Lançando-se sobre os terrenos daquela área, cerca de 70 mil m2, de propriedade do município, a
prefeitura decidiu, em convênio com o Instituo de Aposentadoria e Pensão dos Industriários/ IAPI, pela construção de
um Bairro Popular, o primeiro empreendimento deste gênero em Belo Horizonte a utilizar os blocos verticais de
Idem. P. 80.
8
PASSOS, Luiz Mauro do Carmo. A Metrópole Cinqüentenária. Fundamentos do saber arquitetônico e imaginário social da cidade de Belo Horizonte (1897-
9
1947). Belo Horizonte. Universidade Federal de Minas Gerais. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, 1996. p.283.








