ENTREVISTA COM THEREZINHA BRANDÃO, REALIZADA EM 25 DE AGOSTO DE 2008.

Primeiro eu queria saber alguma história interessante sobre o bairro, um caso curioso que aconteceu aqui, que era algum costume do bairro, tradições…

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O que era mais importante aqui era mesmo a festa da igreja, né? Igreja Nossa Senhora Conceição. Meu pai fundou a banda para tocar para ajudar a construção da igreja. Meu pai fundou a banda dia 31 de maio de 1914. E continuou até hoje.

Em toda festa a banda participava?

Participava. Era muito animado, tinha barraquinhas. A Rua Itapecerica tinha carnaval, tinha desfile. Era bonito mesmo naquele tempo. Agora foi tudo desativado, mas dizem que vai melhorar, né? O prefeito diz que vai melhorar. Agora vem a avenida do bairro São Francisco pra cá, né? Porque estão mexendo aí embaixo já, mas ali já é pra outra coisa. É pro trânsito da Avenida Pedro II e Antônio Carlos, pra facilitar.

E como eram essas festas?

Tinha coroações. Tem um casal que era muito animado. Família Vaz de Mello, Diniz, Caetano… Tudo é Vaz de Mello. Era uma família só. Eram parentes mesmo. Então para movimentar o bairro, para construir a igreja, esse senhor fez a primeira coroação na casa dele, na Rua Itapecerica. Para poder as meninas coroarem, dar aquele movimento. Então a banda ia buscar menina em casa, vinha pra igreja, tinha coroação. Depois voltava com a menina pra casa. Espécie de uma procissãozinha, sabe? E fez o bairro ficar animado. Aqui era mato, não tinha nada. Aí a Rua Itapecerica começou a ter mais comércio, sírios, italianos. Até um italiano fez aquela casa da loba. A nora do Seu Abramo canta no coro até hoje, a neta dele também canta. As festas de primeiro era tudo na igreja mesmo. Ninguém tinha um rádio, televisão nem se fala. A diversão mesmo era ir à igreja, tinham aquelas novenas animadas, barraquinhas. Foi movimentando aos poucos. Depois veio o comércio da Rua Itapecerica, já melhorou um pouco. Já tinha sapataria, tinha umas lojas, tinha tudo aí. Porque aqui é muito próximo do centro, né? E com isso depois foi piorando, porque muita gente foi mudando. Essa família Vaz de Mello mesmo tem poucos aqui no bairro. Eles eram muito animados. Foi assim que começou, mas era muito bom.

E o povo era muito religioso…

Muito religioso. Muito religioso mesmo. O que tinha aqui era igreja. Fazer festa na igreja. Era animado, então era bom.

Para a senhora, o que era a Lagoinha antigamente e o que ela é hoje?

Era muito melhor. Porque a gente podia sair, tinha footing aqui na Rua Itapecerica. Terminavam as coroações na igreja, tinha footing aqui na Rua Itapecerica. Até minha irmã ficou conhecendo o marido dela aí, no footing. Era animado, sabe? Porque essa igreja não tinha uma praça, né? Não tem. Então o movimento todo era na Rua Itapecerica, mas era bom. Mas agora também tem as vantagens hoje, né? Tem faculdades aqui, tem tudo. Vai melhorando. Agora com esse serviço que está sendo feito, a Antônio Carlos, vai melhorar. Vai desativar muita casa, porque a Itapecerica vai ser alargada, a Antônio Carlos também. A gente não sabe esse projeto, mas dizem que tem tudo. Era animado, tinha muitas famílias italianas. Aquelas coroações eram animadas, a gente podia sair sozinha, não tinha problema. Hoje em dia está tão difícil, porque hoje os bandidos estão tomando conta.

Antes não tinha isso, né?

Tinha, não. A Praça Vaz de Mello você podia passar pra, pra cá, ninguém mexia com você. Podia passar 9 horas da noite, 10 horas, não tinha problema nenhum. Tinha aquelas mulheres da Paquequer, né? Mas elas ficavam quietas lá. Problema delas.

Os grupos conviviam bem?

Bem, bem.

Respeitavam?

Respeitavam, sim. Porque elas eram assim respeitadas, nem bem respeitadas. É porque o problema delas era outro, né? Mas não teve nada, não. A gente passava na Paquequer, não tinha problema nenhum, não.

Então disso a senhora sente falta, né?

É, a gente sente falta, mas tudo vai modificando as coisas, né? A gente tem que aceitar. Belo Horizonte era um mato medonho. Hoje em dia como é que está bonito, né? Tudo o progresso vai melhorando. Porque aqui é muito bom de viver. Agora Lagoinha, a gente gosta daqui, que eu nasci aqui nessa casa, nunca mudei. De forma que a gente gosta daqui, apesar de que está muito feio.

Teve alguma mudança? Que mudança foi?

Mudança que houve… Piorou a Lagoinha, né? Porque o comércio era muito bom ali na rua Itapecerica. Foi modificando, mas agora futuramente vai melhorar. A gente tem muito conhecimento aqui. Muitas famílias que já moraram aqui a gente tem amizade. Mas hoje em dia está muito difícil muita convivência, porque o povo hoje é muito ocupado. A mocidade coitada, estuda, trabalha, chega em casa tarde da noite. De primeiro, não tinham essas coisas, não. O comércio fechava às 5:30h da tarde. Ficava a tarde toda ali. A gente brincava na rua, os pais sentavam no portão, a gente brincando. Aquela algazarra, aquela meninada. Mas era bom. Não tinha a maldade que tem hoje. Podia brincar tranquilo, não tinha problema nenhum. Era bom. A gente aproveitou muito. Tinha a família Vaz de Mello aqui do lado. Vinha tudo aqui pra casa, pra brincar. Aquela meninada. Era engraçado demais. Mas eles desmancharam a casa velha e fizeram um prédio de apartamentos. Nós conservamos aqui enquanto der, assim com terreiro e tudo.

Essas mudanças, a senhora acha que foi por causa do progresso mesmo?

É, foi por causa do progresso. Porque tudo tem que melhorar um dia, né? A gente tem que ver as coisas. Mas tudo tem a sua época, tudo vai modificando mesmo. Até as famílias não tem mais aquela convivência, né? Porque televisão… O povo fica tudo dentro de casa. Não conversa. Às vezes não pode fazer uma visita porque chega lá e a televisão está ligada e o povo não desliga a televisão. A gente vê novela, essas coisas. É diferente. De primeiro as famílias eram muita unidas mesmo. Porque o tempo era outro. Hoje em dia é tudo mais difícil, mais complicado. Mas era bom. A gente vai convivendo.

Então a senhora acha que de certa forma as mudanças foram boas…

Foram boas, vai melhorando, devagarzinho. Porque não é de um dia pro outro. A Avenida Antônio Carlos foi aberta, era uma chácara que tinha ali do Seu Napo, E o terreno dele era ali da Itapecerica até na Diamantina. E o terreno dele abriu a Antônio Carlos. Mas naquele tempo, Juscelino falou que estava muito boa a largura que estava. Mas o progresso veio tão rápido. Outro dia eu fui até a Pampulha, mas a avenida já está cheia, é carro demais. Mas está bonita, né? A Antônio Carlos. O prefeito e o governador aqui são dignos de louvor. Fazem a coisa mesmo. Se os outros continuarem está bom, né? Eles continuam, né? Porque já tem um projeto pronto. Mas acho que vai melhorar.

A senhora não fica triste por saber que mais casas vão ser derrubadas?

Não, as casas estão muito feias também. Muito degradado. Tudo muito feio, ninguém zela. Então fica tudo muito feio. Mas é preciso mesmo de melhorar. De fazer casas bonitas, novas. A Antônio Carlos está uma coisa louca, que beleza que está. Do bairro São Francisco pra lá é muito bonito, né? E também a via de acesso pra Pampulha é só essa mesmo. Então tem que melhorar mesmo. A pessoa vem de fora… Dizem que aqui na frente vai ser uma praça. Porque o erro, sabe o que é? Foi fazer a rodoviária ali. Porque, de primeiro, a Praça Vaz de Mello era larga. Era só ligar na Afonso Pena. A rodoviária atravancou. Não deixou o progresso ir mais rápido. Porque esse negócio de viaduto resolve também, mas nem tanto. Agora estão desmanchando tudo aí pra baixo. Eu não incomodo, não. Vai melhorar, está bom. Agora quem vai ver mesmo é quem está nascendo agora, vai ver o futuro, a diferença que vai ser. A gente que está mais de idade…

A senhora sente falta da antiga Praça Vaz de Mello?

A praça era muito comércio, tinha muita farmácia, tinha de tudo. Pra atravessar era uma beleza. Hoje em dia é mais complicado. Tem que passar na passarela. Era muito fácil. Eu não tenho saudade assim, porque a gente via que o acesso pra cidade era aquele mesmo. Agora vai melhorando. A Avenida Pedro II tinha enchentes horrorosas e não tem mais. Foi melhorando. Tem que melhorar. Porque tendo dinheiro faz as coisas, sem dinheiro não pode fazer nada. Dinheiro bem empregado, muita obra que estão sendo feitas, né? Muito bom.

Na história do bairro, o que mais marca a senhora?

As festas de igreja mesmo. Porque naquele tempo era só festa de igreja, não tinha outra coisa, não. Não tinha nada. No meu tempo mesmo, eram as festas de igreja só. Era muito animado. Papai ensinou músicas pra mim e para os meus três irmãos. A gente ficava mais entrosado com coisa de igreja mesmo. Você vê que aqui é só música. Tudo é música. É um arquivo enorme. Tem que cuidar. Ultimamente só eu que estou cuidando, quando eu morrer não sei como vai ser, não. Doo as coisas pra outro lugar. Viver de música é muito difícil. Infelizmente, é difícil. É por amor mesmo.

Quais lugares aqui da Lagoinha que a senhora frequenta?

Aqui não tem lugar pra ir. No supermercado. Aqui não tem nada só igreja mesmo. Um supermercado bom não tem. Se quiser comprar alguma coisa tem que ir ao centro. Não tem praça mais, né? Agora é só viaduto. Ficou tudo assim muito moderno. A gente não sai nada. Minha coisa é igreja porque eu mexo com o coro. Meu movimento é só com isso.

A senhora não faz nenhum passeio pela Rua Itapecerica?

A gente vai, fazer umas comprinhas. Mas não é aquele passeio de lazer, é por necessidade mesmo.

Quais os lugares dentro do bairro que a senhora evita?

Todo lugar está perigoso hoje em dia. De primeiro a gente tinha muita fama, né? A Lagoinha era famosa, parecia que só tinha gente ruim. E, no entanto não era assim, não. Muita gente criou família aqui. Hoje é que está difícil, por causa da estrutura da família.

Tem alguma feira no bairro?

Não tem, não. Quando tem festa da Imaculada é que tem umas barraquinhas, vende pano de prato, umas coisinhas assim.

Antigamente tinha alguma?

Não, só barraquinha mesmo. Nunca teve feira aqui, não.

A senhora sabe de alguém importante na história do bairro? Uma família importante, tradicional?

Tem a família do Silveira Vaz de Mello. Mora aqui na Rua Além Paraíba. Tem o Eduardo Varela, família Varela. Eles ainda conservam morar aqui, porque a maioria já foi. Tem umas famílias que ainda moram aqui, mas pouca gente. Hoje tem muito apartamento, gente estranha, que não tem amor ao bairro como de primeiro era.

Teve algum padre que fez alguma coisa importante pelo bairro?

Padre Candinho fez uma coisa muito importante e Monsenhor Juvenal. Eles fizeram um colégio. Nossa Senhora da Conceição. Esse colégio foi feito por doações do povo. Eu mesma fazia cobrança na Rua Itapecerica, Francisco Soucasseaux, Além Paraíba… Cada pessoa dava uma quantia por mês. Padre Candinho conseguiu fazer o colégio e a casa paroquial, porque estava muito ruim. Aquela vereadora, Maria Lúcia Scarpelli, estudou aqui no colégio. A mãe dela era professora aí. Deu muita gente que soube valorizar o estudo que teve aqui. Padre Candinho era enérgico com os estudos. Primeiro era assim, saía do Grupo e entrava para admissão, mas tinha que ser de um outro lugar. Agora não. Já fica no mesmo colégio, já tem um seguimento. Então o colégio fracassou. Mas com isso o colégio foi perdendo. Mas agora a arquidiocese tem funções no prédio. O prédio é agarrado na igreja. Era colégio. O ultimo padre fez uma decoração na igreja que ficou bonita. A diversão mesmo aqui é a igreja.

Por falar em colégio, teve uma diretora no Silviano Brandão…

Maria Carolina Campos. Ela era enérgica. Ela soube educar a meninada. Ela passava perto de você, você até arrepiava. Mas ela era boa diretora. Ela era solteira, né? Naquele tempo era bonde, né? A aula começava sempre 7 horas, 6 horas ela já estava aí, era a última que saía. Tinha um piano no corredor de entrada, a professora de canto tinha que tocar aquelas marchas cívicas. A gente entrava marchando. Os meninos com a mão sobre a testa e as meninas com a mão sobre o peito. A gente entrava num entusiasmo. Era animado. A gente tinha espírito de ordem. Um regime feio mesmo. A Dona Neném consertou essa moçada aqui. Hoje em dia nem curso noturno pode ter no Grupo, porque só dá pivete, menino levado. É de manhã e à tarde só. Mas Dona Neném era extraordinária. Era boa diretora mesmo. Enérgica. Impunha respeito.

A proximidade com a pedreira tem alguma influência, assim, na violência?

Não, a pedreira é mais isolada. Ali já é São Cristóvão. De primeiro era tudo Lagoinha. Agora dividiu, porque o bairro era muito grande. Agora tem Bonfim, Carlos Prates…

Eu li algumas coisas sobre o bairro e fiquei sabendo de alguns personagens folclóricos, como o Cintura-Fina, Maria Tomba Homem… A senhora sabe alguma coisa sobre eles?

Tinha um caso que até o Abílio Barreto escreveu. Essa estória já é velha. Tem uma colega de coro que fala, “ih Terezinha, minha avó já contava isso há tantos anos”. Ele inventou essa estória. Isso é estória que ele conta. A procissão tava descendo a Rua Adalberto Ferraz, quando chegou à Rua Itapecerica, não tinha ônibus, não. Era um carro que eles chamavam de jardineira. Um carro de madeira, muito feio. Chamava jardineira. Esse historiador inventou, mas diz a minha colega que esse caso é velho demais, que a avó dela já contava. A avó dela já tinha morrido há tantos anos… Que quando chegou aqui na esquina, o Monsenhor que era o vigário falou com o papai assim “olha a jardineira!”. Aí papai começou a tocar “ô jardineira, por que estás tão triste? (…)”. Mas ele conta isso com uma coisa de que foi verdade, mas é mentira.

Tinha uns casos assim de procissão, uns casos engraçados. Porque tinha uma família, tinha um que bebia demais. Ele gostava de acompanhar a procissão perto da banda. Ficava tonto, esbarrando nos outros. Quando foi um ano, o padre Monsenhor Guedes tinha um andor portátil que punha na porta da igreja pra fazer o sermão do encontro, do enterro… Ele chamava Antônio Tabatinga, e ele, quando viu aquele silêncio, ele gritou bem alto, “viva a paixão e morte do Nosso Senhor Jesus Cristo”. Aí viva ou não viva? Foi pela paixão e morte que nós fomos… né?

Monsenhor Guedes era engraçado. Quando chegava à igreja ele não gostava que ninguém passasse perto do andor. Tinha uma dona que usava uma capona comprida. Aí ela passou por baixo do andor pra passar pra frente. Monsenhor Guedes é muito engraçado, quando viu que era ela, puxou ela pela capa, voltou ela pra trás, “até a senhora, ein?”. Monsenhor Guedes era muito severo. Mas era muito piedoso. Ele já é velho.

A senhora ainda frequenta festas aqui? Só religiosas, não é?

Só, não tem outra. Que festa que tem? Congado eu não gosto, aquela barulhada. Uma barulhada dentro da igreja, aquela tocação de tambor. Não gosto. Eles estão homenageando Nossa Senhora, eles estão certos. Mas eu gosto das coisas mais sérias. As festas do dia 8 de dezembro. Tem as que cantavam desde menina. Papai ensinou uma turma de meninas. Papai juntava doze meninas. Menino não gostava. E tem umas que já são bisavós e cantam dia 8 até hoje. Aquela tradição, né?

Aqui ainda tem carnaval?

Não, acabou há muitos anos. Belo horizonte tem agora é desfile. Carnaval de rua que as famílias frequentavam, que podia distrair sem medo nenhum. Hoje em dia tem lugar próprio pra ver desfile, perdeu a graça. Tinha um clube ali. Acabou tudo.

Lívia Fortini Veloso

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